Artigo: No. 003 · O castelo novo do papa

No. 003 · O castelo novo do papa
Uma carta de Châteauneuf-du-Pape
No mês passado, o trabalho levou-me a Avinhão, e na última tarde fiz o que todos os que bebem vinho acabam por fazer por lá: conduzi vinte minutos para norte, estacionei no alto de uma pequena aldeia e subi a pé até um castelo que, na verdade, já lá não está.
O que se ergue na colina acima de Châteauneuf-du-Pape é um único pano de muralha e uma torre desfeita, dourados pela luz do fim da tarde, com todo o vale do Ródano meridional estendido lá em baixo. É uma das ruínas mais famosas do mundo do vinho. É também a razão de o próprio vinho existir — e a história de como ali chegou é melhor do que a maioria dos romances.
UM PAPADO NO EXÍLIO
Em 1309, Roma não era lugar para um papa. A cidade estava dilacerada pelas rivalidades entre famílias nobres, e o recém-eleito Clemente V — um francês — nunca lá pôs os pés. Em vez disso, a corte papal instalou-se em Avinhão, nas margens do Ródano, e ali ficou durante a maior parte do século XIV. Sete papas seguidos governaram a Igreja a partir de uma cidade ribeirinha francesa. Petrarca, que vivia perto, detestava-a e chamava-lhe Babilónia. Os papas, segundo a maioria dos relatos, até gostavam bastante dela.
Construíram em conformidade. O Palácio dos Papas de Avinhão continua a ser um dos maiores palácios góticos da Europa, e ao percorrê-lo percebe-se a ambição: aquilo era para ficar. Mas todas as cortes precisam de um sítio para onde ir no verão, e todas as cortes precisam de vinho.
JOÃO XXII E A SUA VINHA
O segundo papa de Avinhão, João XXII, escolheu o cimo de uma colina sobre uma aldeia com o mesmo nome, a uma curta cavalgada para norte. Ali mandou construir uma residência de verão — o château neuf, o castelo novo — e mandou plantar vinha nas encostas em redor, para a mesa papal. Durante séculos, o lugar foi apenas uma aldeia vinhateira entre muitas; só em 1893 adotou oficialmente o nome de Châteauneuf-du-Pape. Mas a ligação ficou, e as vinhas também.

Vindima por baixo do castelo novo, já com as pedras sob os pés. Ilustração ao estilo de um retábulo medieval.
O castelo teve pior sorte. Depois da Revolução serviu de pedreira, e em agosto de 1944 as tropas alemãs em retirada fizeram explodir a torre de menagem. O que resta é a muralha junto à qual eu estava, e que, de algum modo, comove mais do que o edifício inteiro alguma vez teria comovido.
AS PEDRAS
A primeira coisa em que se repara nas vinhas é que quase não há terra. O chão está coberto de galets roulés — pedras lisas e arredondadas, do tamanho de um punho, trazidas dos Alpes pelo Ródano ao longo de milénios. Absorvem o sol durante todo o dia e devolvem o calor às videiras à noite; é por isso que as uvas aqui amadurecem tão plenamente e que os vinhos são tão generosos: fruta escura, especiarias quentes, mato mediterrânico, o cheiro da encosta no fim do verão.
A Grenache faz a maior parte do trabalho, mas as regras admitem um elenco notável — treze castas ao todo, tintas e brancas, que cada produtor junta em lote como bem entende. Isso faz do Châteauneuf menos uma receita do que uma discussão de família, retomada colheita após colheita.
AS REGRAS, E OS DISCOS VOADORES
A aldeia tem o hábito de pôr as coisas por escrito. Em 1923, um viticultor e advogado local, o barão Pierre Le Roy de Boiseaumarié, redigiu um conjunto de regras sobre o que podia chamar-se Châteauneuf-du-Pape — que terras, que castas, que grau de maturação. Tornou-se o modelo de todo o sistema francês de denominações de origem, e em 1936 o Châteauneuf foi um dos primeiríssimos vinhos a ser reconhecido ao abrigo dele. Olhe-se para quase qualquer garrafa hoje e lá estão a tiara papal e as chaves cruzadas de São Pedro gravadas em relevo no vidro.
E em 1954 o presidente da câmara publicou um edital que ainda hoje me custa a acreditar que fosse a sério: os discos voadores ficavam proibidos de sobrevoar o município, de nele aterrar ou dele descolar, e qualquer um que o fizesse seria apreendido. Que se saiba, nenhum tentou. As vinhas continuam inteiramente livres de tráfego extraterrestre.
O QUE TROUXE PARA CASA
Vim-me embora com duas garrafas e um pequeno galet no bolso do casaco, que agora vive na minha secretária, em Copenhaga. Quem abrir um Châteauneuf este outono deve tirar-lhe a rolha cedo, servi-lo um pouco abaixo da temperatura ambiente e dar-lhe uma hora e um jantar demorado. É um vinho feito exatamente para isso — e para contar esta história a quem estiver sentado do outro lado da mesa.
Até à próxima,
Max
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